Entrevista Miss Tattoo Verão 2019 – Festival de Tatuagem de São Vicente

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O 3º Festival de Tatuagem de São Vicente, considerado o maior evento da região, rolou nos dias 18, 19 e 20 de janeiro de 2019 e reuniu cerca de 150 tatuadores de todo o país nas dependências da UNIBR. Além de todo o universo da tatuagem, a programação incluiu atrações musicais, exposições de arte, moda, cultura urbana, fotografia e área de food trucks.
Uma das programações mais esperada foi o concurso Miss Tatto Verão que contava com a participação de 15 manas tatuadas de todo o país que concorreram, além do título, à uma viagem no Chilli Mob Cruise, um cruzeiro de moda organizado pela marca de óculos Chilli Beans.
A vencedora foi a curitibana Amanda Barbie Tattoo, de 24 anos, que viajou durante seis horas para participar do concurso. Ela, que trocou sua festa de 15 anos pela sua primeira tatuagem, desde pequena é interessada pela arte, já foi tatuadora e, hoje, ilustra desenhos e pingentes para colares. Querendo quebrar tabus, ao lado de sua mãe Cristina – que sempre a apoiou – ela nos conta como começou toda sua trajetória no mundo da tatuagem.

BELA TATUADA: Amanda, quando foi que a tatuagem entrou na sua vida?
AMANDA: Eu troquei minha festa de 15 anos por uma tatuagem. Minha mãe não me deixava tatuar com 14 anos, então eu pedi pra ela ao invés de eu ter uma festa se ela me autorizava a ter uma tatuagem, né?! Foi assim que eu convenci ela. Daí ela viu que eu queria tanto que ela deixou, e foi aquela história: “Ah, só vou fazer uma pequenininha, não vou fazer mais.” Desde então, nunca mais parei.

BT: Quantas tatuagens você tem?
AM: Olha, não sei por que eu comecei com pequenas e fui aumentado, sabe?! Então, acho que passar por tatuagens foram umas 30 vezes, mas aí foram tentando fazer com que elas virassem fechamento.

BT: E com quantos anos você começou a tatuar?
AM: Comecei a tatuar com 21 anos. Minha família inteira começou a falar que arte era só hobby, que eu tinha que fazer alguma coisa séria. Aí lá com 17 anos, eu não sabia o que queria e fui cursar direito. Depois de um tempo minha mãe, que não gostava de tatuagem, disse: “Olha, eu acho que você deveria largar o curso de direito e fazer tatuagem, fazer o que você gosta”, então escutei o conselho dela e fui fazer. Comecei tatuando desenhos femininos, mais delicadinhos que são os que mais gosto mesmo, FineLine. Depois, virei aprendiz do Alexandre Prim, um dos tatuadores mais renomados de Curitiba, e depois virei gerente do estúdio dele. Mas aí ele foi viajar para Portugal e tive que sair do estúdio por motivos de saúde também. Comecei a trabalhar com vendas de desenhos mesmo, ilustrações. Gosto bastante de desenhar animais. Por exemplo, seu pet morreu, eu vou lá e faço um, no estilo pergaminho pra presentear, faço desenho pra pingente de colar também.

BT: Então, hoje você vive fazendo seus desenhos e os desfiles vem para complementar?
AM: Eu sempre gostei muito do meio da tatuagem, então mesmo não tatuando mais profissionalmente – hoje só tatuo amigos mais próximos quando pedem – mas mesmo não tatuando mais, eu gosto desse mundo. Então, por isso, eu acabo participando dos desfiles e faço meus desenhos.

BT: E você Cristina, como foi ver sua filha de 14 anos te pedindo uma tatuagem?
CR: Como ela sempre foi boa aluna, muito boazinha, nunca me deu trabalho, eu falei: “Vou deixar ela fazer tatuagem”, aí eu deixei e assim começou. Depois insisti bastante pra ela fazer o curso porque, desde pequena, ela sempre gostou muito de desenhar. Até as professoras brigavam na escola porque ela demorava muito pra desenhar porque ela fazia todos os detalhes. Aí falei: “Poxa, não tem o porque brigar. Se você gosta de tatuagem e gosta de desenhar, por que não faz o curso?”

BT: A gente sabe que ainda tem muito preconceito no mundo da tatuagem principalmente com mulheres; por ser uma mulher tatuadora, por desfilar em um concurso de tatuagem ou simplesmente por ser uma mulher tatuada. Você, como mãe, sentiu isso vindo da família ou de amigos já que sempre teve sua mente aberta?
CR: Os amigos, até uma vez, falaram: “Nossa, ela era tão bonitinha! Como é que ela virou isso?”
AM: “Nossa, que aberração!” Só porque tem tatuagem.

BT: Você já sofreu esse preconceito, Amanda?
AM: Já! Eu trabalhava como auxiliar médica em um consultório. Uma vez, um paciente viu a tatuagem por baixo do jaleco e comentou:


Pra ele, tatuagem era coisa de marginal. Então já sofri um pouco de preconceito sim, até com homens que falam: “Ah, você tem tatuagem?! Achei que você fosse lésbica porque tatuagem é coisa de mulher ‘machona’”. Acho ridículo pensar desse jeito e, também, se eu fosse lésbica qual seria o problema? O que ele teria a ver com isso?

CR: Como eu sempre estive com ela, sempre levei e busquei nas festas, nos encontros, conheço os amigos desde que ela tinha 12, 13 anos não teve problema nenhum, nunca se envolveu com coisas ilícitas nem nada, então eu percebi que isso não define caráter.
AM: Uma coisa que eu sempre gostei de mostrar nos desfiles, e no meio da tatuagem também, é que mulher pode ter tatuagem, sim! Na verdade, mulher pode ser o que ela quiser, mas pode ter tatuagem e ser feminina, quebrando aquele estereótipo de que mulher que tem tatuagem é bem louca, que enche a cara e vai sair quebrando tudo, que é drogada, que é – desculpe a palavra – puta, sabe?! Quero quebrar coisas assim!

BT: Hoje em dia a tatuagem vem conquistando seu espaço só que de uma forma mais estética ou padronizada do que pela própria arte em si. O que você pensa sobre isso?
AM: Ou as pessoas vão pelo preço mais barato ou porque tal pessoa famosa fez. Mesmo que não tenha tanto significado pra pessoa que está fazendo, mas para o artista é uma arte porque ele se dedicou para fazer aquilo da melhor forma.


BT: A gente já viu que você ama arte, ama o mundo da tatuagem. E pra você como pessoa, como artista e, agora, como Miss Tattoo, qual sua missão nesse meio? Existe algo que você ainda almeje conquistar ou mostrar para o que você veio?
AM: Seria mostrar que todos nós que temos tatuagens somos uma tela viva, somos uma arte. Não é um ato marginalizado. Hoje em dia eu vejo que a tatuagem é mais valorizada só que ainda existe o preconceito, mas se as pessoas conseguissem ver que isso é uma arte… é uma arte viva! Você está mostrando sua arte em alguém, como se fosse um quadro da pessoa. E eu acho tão mais bonito isso porque um quadro está lá parado, ok. Mas nós vivemos todos os dias com a arte daquela pessoa.

A gente já se ligou que o título de Miss Tattoo Verão 2019 de São Vicente será muito bem honrado! E não há preço no mundo que pague o prazer de saber que existem pessoas que acreditam e querem mostrar o verdadeiro significado de uma arte tão valiosa como a tatuagem. O evento, com certeza, atingiu seu objetivo.

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About Author

Paulista, idealizadora do Projeto Bela Tatuada, Tatuadora autônoma, body piercer, 22 anos. " Sonhar é necessário para existir."



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