Hoje em dia, a mulher tatuada se tornou mais comum a vista da sociedade, seja com minimalistas, pequenas, médias, braços lacrados, rosto ou até Eye Ball, mas e lá em 1996? Será que era comum?
Para quem não conhece ela, que já foi recordista como a mulher mais tatuada do Brasil, jurada em diversos concursos em eventos de tatuagens, modelo e representante forte das minas na cena da tattoo, Carla Sampaio conta sobre sua trajetória.


Carla Sampaio, 40 anos, Osasco – SP

” Eu sempre quis ser diferente, mas só entrei pro mundo da tattoo aos 18 anos, quando fiz minha primeira tatuagem, depois disso o meu mundo mudou. Naquele ano teve uma convenção de tatuagem, que o Leds organizou, eu fui e fiquei mais encantada ainda. Lá em 1996, me dei de presente minha primeira tattoo, era uma coisa bem underground e em mulher então, era raridade. Já logo fiz um índio enorme nas costas. Em 1999 fui fazer outra, fui em um estúdio onde conheci o Fernando, hoje meu marido.
Entre uma tattoo e outra nos apaixonamos, aí é claro, unimos o útil ao agradável, acabei saindo do meu emprego pra me dedicar ao estúdio com ele e já são 18 anos de amor e de tatuagem.
No começo o preconceito da família foi uma grande dificuldade, porque a tatuagem era um super tabu e como ninguém na família tinha tatuagem já viu né? Eu era considerada uma rebelde, mas com os anos e com a convivência, eles viram que eu era a mesma e tem muita gente da família tatuada agora.
Quanto as pessoas na rua era bem difícil, mas eu confesso que nunca liguei muito pra isso, sempre quis demonstrar que uma mulher tatuada é como as outras, eu sempre dei ênfase nisso, por isso as pessoas sempre me aceitaram muito bem. Eu sempre tratava todo mundo com educação e respeito e a pessoa que chega em você de repente com preconceito é desarmada na hora!
Antigamente a tattoo era mal vista tanto em homens quanto em mulheres, mas em cima das mulheres sempre teve um peso maior, quando eu entrei pro livro dos recordes como mulher mais tatuada do Brasil, eu fui em todos os programas de TV e pude mostrar que não somos delinquentes, muito menos inconsequentes. Eu, quando olho pra trás e vejo minha trajetória, fico muito feliz, pois sei que contribui, mesmo que um pouquinho pra quebrar os pré-conceitos das pessoas nesse quesito.

A mulher hoje é mais independente, mais decidida. Ela quer fazer tatuagem, vai e faz.

Muitas meninas que estão aí hoje ao me encontrar, me dizem que fui a inspiração delas, isso pra mim vale muito, muitas vezes eu até choro de emoção, porque a mulher tatuada conquistou definitivamente o seu espaço e eu sei que faço parte dessa historia. Não tem dinheiro que pague isso.
As tatuadoras estão dominando um espaço fantástico na tattoo, no meu tempo (digo em 96/97 ) nem tinham muitas, era a Claudia Macá, a Medusa, a Vânia e olha hoje, tem muitas tatuadoras e nesses últimos anos elas estão partindo pro realismo, coisa que a gente só via homem fazendo. Eu acho o máximo, no body piercing também né, as mulheres mandam demais, eu quando comecei era body piercer, mas depois que tive minha filha acabei parando, mas logo estou de volta ás artes.
Como modelo, na verdade nunca me considerei uma modelo, mas as coisas começaram a acontecer depois que sai na capa da Metalhead Tattoo. O César Nemitz e a Giovanna Arrais me indicaram a procurar o livro dos recordes, porque disseram que nunca tinham fotografado uma menina com tantas tattoos, ai eu resolvi procurar em menos de 6 meses eu já estava com o recorde na mão, aí chovia convites de emissoras de TV, eu aceitava todos, porque ver a tatuagem na TV era o máximo, as coisas foram acontecendo.
A tatuagem só me proporcionou alegrias, ir para TV foi muito marcante pra mim, muito especial, porque naquela época na tinha internet né? O ápice era a TV, sair em um livro sobre mulheres tatuadas também me mercou bastante, pois ali está documentada a minha historia.

(Capas de revistas com Carla Sampaio)

Uma coisa que me deixou bem emocionada, foi um amigo, muito conhecido no mundo da tattoo, o Fabio Zani, me enviou uma mensagem e no final ele escreveu: “ Você é o ícone da mulher tatuada brasileira” uauuu ler aquilo foi demais, um fato que me marca muito também é quando as meninas me dizem que sou inspiração pra elas. É uma responsabilidade você ser inspiração pra alguém.
Nunca entrei em um concurso de Miss Tattoo, mas já fui homenageada na II convenção da Metalhead, ganhei um troféu lindo, de mulher mais tatuada, sou recordista também duas vezes como mulher mais tatuada do Brasil, o primeiro em 2000 com 67% do corpo, e o segundo em 2002 com 80% do corpo, fiquei 7 anos no recorde foi bem legal.


Foi o tempo que as mulheres tatuadas eram consideradas imorais, prostitutas, vistas como fáceis ou até mesmo delinquentes, graças a mulheres como Carla Sampaio e muitas outras, esse tabu foi se quebrando.
Mulheres tatuadas, são mulheres com mais cor.

Facebook: @CarlaSampaio

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