Uma foto que ganhou repercussão nacional no ultimo mês, foi motivo de chacota, ódio e muito preconceito. A foto que apenas mostrava a felicidade de uma mulher em ser quem ela é, em amar-se da forma que é e mostrar que seu corpo não é motivo de vergonha, levou muitas pessoas questionarem sobre a beleza dela. Daniela Martins, 21 anos, Pernambucana, vem sofrendo ameaças em mensagens de ódio diariamente e tem resistido a isso, como? Com amor. Isso mesmo. Você vai entender, tivemos uma conversa com ela no último Domingo (08), confira a entrevista.
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1. O que aconteceu que levou a essa grande repercussão?
” Eu postei essa foto no dia 31 de Outubro de 2016, tinha umas mil e poucas curtidas, algumas meninas me chamaram falando que a foto era linda, inspirando, de certa forma coisas positivas.  Eu decidi colocar essa foto no perfil, um amigo meu havia feito um poema e disse para que eu usasse, que tinha tudo haver. 
Depois dessa publicação, começou os comentários de pessoas que eu não conhecia, um menino começou a dizer coisas como: “Gorda”, “Baleia”, “Lugar de gorda não é no Facebook”. 
Um amiga começou a discutir e depois disso começou tudo, criaram-se grupos de ódio com nomes tipo VCM, CDJ e vários outros com mais de 50 mil pessoas se juntando para atacar a foto e atacar o meu Facebook. Virei até mesmo meme, houve diversos compartilhamentos e ai começou toda a repercussão.”

 

Poema usado como descrição da foto de Daniela:
Meu corpo tem poemas
Não renascentista
Não vanguardista
Não de um grande artista
Mas tem poemas
Tem poemas com flores jamais vistas
Tem cores jamais tintas
Tem arte distinta
O meu corpo tem poema…
Um poema tão abolicionista
Tão obra de um autista
Tão fora da revista
Tão grito de ativista
O meu poema é tão egoista
Que ao invés de populista
Ele é todo meu.
Jordan Vilas Boas  

 

2. Inicialmente como reagiu a isso? Suas primeiras atitudes em relação aos ataques.
” Quando começaram os ataques, eram mais aqueles que eu citei, “Gorda, Baleia”, era tanto ódio, eu pensei que eu ia reverter tudo isso em amor sabe, porque eu costumo dizer que eu sou amor. Não tinha porque eu reverter ódio com ódio. Eu reagi normal, eu estava pensando nas pessoas que estavam nesse processo de aceitação, porque eu sei como é doloroso, você se espelhar em alguém e acontecer isso. 
Mais eu to aqui na luta por todas e eu sei que disso vai surgir muita mulher empoderada.”


3. Em algum momento durante esses ataques, você pensou em desistir de ir em frente e denunciar essas pessoas, simplesmente tirar a foto do ar e deixar passar como se fosse mais um episódio de preconceito na internet como o cyberbulling?
” Eu fiz evento com algumas meninas chamado Close Gordo na Praia de Boa Viagem, com intuito de incentivar as meninas a usarem biquíni e se empoderarem, usassem biquíni, eu postei algumas fotos no Facebook, onde havia marcações de algumas meninas e eu tive que retirar algumas fotos e até marcações do evento porque as meninas estavam começando a ser atacadas, mas em momento nenhum eu pensei em tirar a minha foto e deixar a poeira baixar. Eu sou uma pessoas humilde sabe, não tinha condições de acionar advogado, apesar de que fui até a delegacia e eles disseram que eu precisava mostrar provas, no caso prints, mesmo eu falando que eram mais de 10 mil comentários de ódio, eu não pude de inicio prestar a queixa.  Quando eu sai da delegacia sem o B.O eu fiquei muito desmotivada a correr atrás, mas de tantos comentários de mulheres me apoiando, até mesmo homens, me deu força. Me faz pensar que ajudando outras pessoas a luta continua e a resistência também.”

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4. Você sentiu algum tipo de discriminação ou até mesmo descaso com parte da policia ou órgãos públicos em relação ao caso? Ou você foi recebida bem e vem recebendo apoio e até mesmo solução dos casos?
” No primeiro momento que eu fui a delegacia,  eu senti um descaso, porque não consegui sair de la com a queixa, eles diziam que eu precisava dos prints para poder prosseguir. Até que dias depois, uma amiga viu um caso e ligou dizendo que tinha uma advogada, ela me ligou, dizendo que era do ministério publico. Eles abriram uma ata, pedindo para agilizar o processo, porém só terei um retorno na próxima semana. No ministério publico eu fui muito bem recebida, eles me explicaram tudo direitinho, foi muito bom.” 

5. Temos diversos casos de cyberbulling diariamente seja um post, em um foto ou um vídeo. O ódio vem se espalhando na internet de forma comum.
A pergunta é, depois desse episódio você chegou a repensar o porque isso aconteceu? O que levou essas pessoas e o que leva as pessoas a praticarem tanto ódio e ferir umas as outras na internet? Sendo que pessoalmente todos são ditos “santos”?
” Isso aconteceu porque a sociedade não aceita mulher gorda e feliz, eles querem que sejamos tristes, por não alcançarmos o padrão. Querem que ela fique na sua, sem mostrar essa felicidade. Eu não sei de onde vem tanto ódio, até agora eu não entendi. Eram tantas pessoas com vários discursos racistas, gordofóbicos e homofóbicos. Não consigo entender o problema de eu me amar tanto, por não me importar com o que os outros acham do meu corpo, mostrar que eu me amo. Pessoalmente ninguém chegou a falar, os mais próximos falam em relação a saúde, mas fora isso eu não dou certa liberdade, eu mostro que sou linda e sou maravilhosa e que ninguém vai mudar isso.”

Muitas mulheres estão admirando Daniela por sua força, sua resistência e muitas não entendem de onde vem essa força, ela explicou:
” Essa força veio de mim, da minha superação de vida. Eu nunca tive alguém pra me inspirar, eu nunca fui muito próxima da minha mãe, ela é tudo pra mim, minha base, mas eu nunca tive aquela aproximação de contar o que estava se passando comigo, tive que retirar toda essa força de mim e buscar amor todos os dias. Carrego meu corpo todos os dias, não tem porque não ama-lo, não tem porque ter ódio, o mundo já está cheio de ódio, porque não distribuir mais amor? Não vai parar por aqui, muita mulher esta se empoderando, criando coragem e não vai existir esse padrão ou pode existir mas vai ser menos, a mulher tem que se amar do jeito que ela é, independente do seu peso. Eu luto pela aceitação do corpo, não faço apologia a obesidade, muitas mulheres magras não se aceitam, sofrem de baixo auto-estima e eu luto por isso também. O corpo é uma coisa sua, uma coisa natural.”

 

Daniela Martins antes do episódio e Daniela Martins hoje?
” Mudou a resistência, na força. Eu venho ganhando muito apoio e vi muitas mulheres se ajudando e na luta. A Dani de hoje é uma mulher muito mais forte do que a Dani de ontem, antes dos ataques.”

15941509_1434788906555104_3528101930941314954_nUm recado para as leitoras:
” Eu gostaria de dizer para todas as mulheres para que se aceitem, que busquem esse amor dentro de vocês, que amar a si mesmo é libertador, mostrando que ninguém vai mudar isso, peço para que as mulheres se empoderem, mostrem a força, porque juntas somos mais fortes. A aceitação foi a melhor coisa da minha vida, porque eu tenho certeza que se vocês começarem nesse processo, se aceitarem, vocês vão se sentir livres, vão se sentir lindas. vão se sentir mulheres donas de tudo, donas de vocês mesmas.
Mulher gorda pode sim, pode fazer o que quiser e usar o que quiser. Amem-se, não tem nada melhor que isso.
Eu tenho orgulho de ser essa pessoa que sou hoje, eu vivo na resistência diariamente, por ser negra, periférica e gorda, tudo em uma coisa só, venho resistido todo dia. E estamos juntas nessa luta, por todas, amar-se é libertador e precisamos dessa liberdade.”

Nos estamos com você na luta querida Daniela, muito obrigado pela sua atenção, você é demais mulher!

 

 

 

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